A origem da apuração está registrada na representação do Gaeco: uma denúncia anônima apontou um suposto grupo articulado para manter Wanderley na presidência e formar maioria para tentar cassar a prefeita Flávia Moretti (PL). A comunicação mencionava uma reunião em 13 de maio, na véspera da eleição da Mesa Diretora, em uma chácara no Distrito da Guia, em Cuiabá.
O Gaeco monitorou o encontro com um drone. Conforme noticiado pelo RepórterMT, as imagens registraram pessoas e veículos na propriedade e identificaram Braz Jaciro e Dr. Miguel entre os presentes. A votação ocorreu em 14 de maio. Posteriormente, o STF anulou a eleição para o biênio 2027/2028 por considerar excessiva sua antecipação.
Outro episódio incorporado à apuração foi a abordagem da Rotam a um veículo ocupado pelos vereadores cuiabanos Alex Rodrigues e Ilde Taques, após deixarem a reunião. O RepórterMT informou que R$ 40 mil foram encontrados no carro, mas não chegaram a ser apreendidos.
Na investigação sobre o chamado “mensalinho”, uma testemunha com identidade preservada apontou pagamentos de aproximadamente R$ 10 mil por mês e oferta de cargos para assegurar apoio a Wanderley. Os valores, segundo esse relato, seriam entregues na casa da mãe do presidente ou pelo secretário legislativo Samir Katumata, em um Corolla preto blindado.
A investigação também revelou a suspeita de um plano para cassar Flávia Moretti e obter controle político sobre uma eventual privatização do Departamento de Água e Esgoto (DAE). A denúncia menciona promessas de R$ 500 mil a vereadores relacionadas a essa articulação.
Além das ofertas financeiras, o relato da testemunha descreve o uso de gravações clandestinas e cartas de renúncia assinadas previamente para pressionar parlamentares. Wanderley teria preparado seu escritório para filmar vereadores recebendo dinheiro e utilizar as imagens como instrumento de coerção política.
Nesse contexto, o RepórterMT noticiou que Rogerinho Dakar teria sido gravado escondido no local. O vídeo, divulgado em agosto, mostra o então presidente do DAE recebendo maços de dinheiro. Segundo a testemunha, a divulgação ocorreu após o rompimento político entre Rogerinho e Wanderley.
Rogerinho afirma que as imagens foram retiradas de contexto e que os valores se referiam a negócios particulares, sem relação com sua atuação pública. Após ser alvo das buscas da operação desta semana, disse que os agentes recolheram documentos do DAE em sua casa e que entregou um dossiê sobre sua passagem pela autarquia. Também declarou que não participou da eleição da Mesa porque, na ocasião, comandava o departamento.
Outra frente já apurada pelo Gaeco envolve suspeitas de pressão para barrar a CPI do transporte coletivo e questionamentos sobre atos administrativos relacionados à União Transportes. O órgão também apura o possível uso irregular de um ônibus no projeto Bazar Itinerante, associado a Wanderley.
A União Transportes negou irregularidades e afirmou que não foi alvo de medidas judiciais na operação. A empresa sustentou que as alegações sobre suposto financiamento do esquema se baseiam em relatos indiretos, sem comprovação. Sobre o ônibus, Wanderley já havia negado irregularidades, afirmando que a cessão foi formalizada e custeada pela empresa, sem utilização da estrutura da Câmara.
A Operação Cathedra Venalis mobilizou mais de 200 policiais para cumprir 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. Segundo o Ministério Público, estão entre os investigados 13 vereadores de VG e dois da Capital. As sedes das duas Câmaras não foram alvo das buscas.
Em Várzea Grande, a relação inclui Wanderley Cerqueira, Gisa Barros, Rogerinho Dakar, Cilço da Cruz, Braz Jaciro, Alessandro Moreira, Wender Madureira, Sargento Galibert, Dr. Miguel, Lucélia Oliveira, Kleberton Feitoza, Raul Curvo e Enfermeiro Emerson. Em Cuiabá, os alvos foram Alex Rodrigues e Ilde Taques. Também foram atingidos servidores da Câmara de VG, como Lorineide Inhan e Samir Katumata.
No caso de Kleberton, a Justiça autorizou o cumprimento do mandado no Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), onde ele estava internado após sofrer queimaduras graves em um acidente doméstico. Uma petição da defesa confirmou que a diligência ocorreu no Centro de Tratamento de Queimados, com apreensão de bens.
Alvos negam irregularidades
Ao comentar a operação, Wanderley confirmou buscas em seu escritório, negou diligências em sua casa ou gabinete e afirmou desconhecer o conteúdo da investigação. “Eu desconheço a operação e eu acho muito estranho”, declarou.
Samir confirmou a apreensão do celular e atribuiu a operação a uma possível perseguição política ligada ao grupo de Flávia Moretti. Sobre a reunião na chácara, afirmou que a presença dos participantes foi voluntária e contestou a versão de confinamento.
Alex Rodrigues e Ilde Taques negaram envolvimento em irregularidades e disseram que compareceram ao local apenas para um almoço entre amigos. Alex afirmou que nenhum dinheiro foi encontrado em seus pertences. Ilde declarou que não houve apreensão de material ilegal e que os agentes recolheram seu celular. Em nota divulgada no dia da operação, sua defesa informou que ainda não havia acessado o processo e que ele estava à disposição das autoridades.
Sargento Galibert confirmou a presença na chácara e negou compra de votos. Dr. Miguel disse que o imóvel pertence ao pai e afirmou estar tranquilo por não ter cometido irregularidades.
Citado no relatório como apoiador do grupo, o ex-vice-prefeito Tião da Zaeli também se manifestou. Em nota, negou as acusações, classificando-as como infundadas e sem correspondência com os fatos.
A operação teve ainda repercussão dentro da Câmara. Bruno Rios registrou boletim de ocorrência após relatar que Wanderley o ameaçou durante a sessão de terça-feira. Segundo o vereador, o presidente disse que ele iria “pagar”. Bruno relacionou o episódio à investigação e às ações judiciais sobre a eleição da Mesa Diretora.
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