
Antes de conquistar 524.219 votos e uma cadeira na Câmara dos Deputados, Ana Elisa Santos Silva já discutia política, racismo, feminismo e direitos sociais nas redes. Aos 21 anos, a estudante de Direito, eleita pelo PT, foi a segunda mais votada de Minas Gerais para o cargo e a mulher com a maior votação da história mineira para a Câmara. Nascida em Divinópolis, estudou na rede pública e estagiou no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais.
Criada por uma mãe solo que era professora da rede pública, ela conheceu a política acompanhando a mãe no movimento sindical. Outra parte de sua formação vem do Reinado, tradição religiosa e cultural afro-brasileira que reúne devoção católica e ancestralidade africana. Sua família tem raízes em Oliveira, no interior mineiro, e ela participa das celebrações desde os 2 anos.
A eleição trouxe restrições à sua liberdade. Ana Elisa denunciou ameaças racistas e de violência sexual e, nesta conversa, realizada à distância por segurança, relata viver com escolta 24 horas por dia. Entrevistada antes do segundo turno presidencial, ela defendeu acolhimento para a juventude, discutiu as barreiras impostas a uma mulher negra na política e falou da saudade da família.
O que sua vitória diz sobre a participação dos jovens na política?
Acho que não foi apenas a minha vitória. As urnas demonstraram, nos dois campos políticos, uma sede de mudança, uma vontade de renovação. Quando falo em renovação, não me refiro apenas à idade. É a possibilidade de colocar uma pessoa como eu nesses lugares e de abrir caminho para que, daqui a quatro anos, outras pessoas também possam almejá-los. As pessoas têm rejeitado a velha política, mas, quando falo nisso, não estou me referindo às pessoas mais velhas. Refiro-me a uma forma ultrapassada de fazer política, que já não queremos ver.
Você cresceu acompanhando sua mãe no movimento sindical dos professores. O que dessa formação quer levar para Brasília?
Quero levar para Brasília tudo o que aprendi com minha mãe, que é professora, e com o movimento sindical dos professores. A luta pela educação não é uma luta exclusiva dos professores, nem dos filhos de professores. É uma luta de toda a sociedade civil que se importa com o futuro da nação.
A que atribui a resistência à sua candidatura? Ao fato de ser jovem, mulher e negra?
Houve resistência, como acontece em todos os espaços, mas acredito que não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que minha juventude seja um fator mais determinante do que minha cor. Não é. Quando falamos de uma candidatura negra, a possibilidade de resistência social é muito concreta. Não acho que a resistência se explique apenas pela juventude.
Às vezes, penso que nem sequer tem a ver com o fato de eu ser mulher, porque, quando falamos de gênero e raça, minha raça vem antes do meu gênero na forma como sou percebida. As pessoas nem sempre se lembram de que sou mulher, mas têm muita facilidade em lembrar que sou uma mulher preta. Isso reflete a maneira como o racismo estrutural organiza a sociedade.
Como você vê a troca entre sua geração e os políticos mais experientes?
Não acho que sei tudo. Muito pelo contrário: tenho uma vontade enorme de aprender e acredito que isso é fundamental para continuarmos atuando politicamente. É importante reconhecer que não sabemos tudo, mas que estamos dispostos a aprender.
Por que figuras da extrema-direita atraem tantos jovens?
Não sei nem se os jovens escutam de fato o que eles dizem, porque, muitas vezes, o discurso dessas pessoas é prejudicial aos próprios jovens que as acompanham. Acredito que o que atrai é a persona de ativista – no sentido que eles atribuem a isso, obviamente –, de alguém combativo, que provoca, que confronta e que fala o que pensa.
A juventude está mais à direita? O que falta à esquerda para se aproximar desse público?
É um mito dizer que a juventude já foi inteiramente tomada pela direita. Na verdade, essa faixa etária continua em disputa entre os diferentes campos políticos. Nenhum deles conquistou a juventude por completo, e acho isso muito bom. Seria muito ruim se estivéssemos falando de uma juventude politicamente estática, completamente alinhada à esquerda ou à direita.
É importante termos perspectivas ideológicas diferentes, sem que isso se transforme necessariamente em conflito, para que a democracia continue existindo. Talvez tenhamos errado na forma de atrair esse público. Não se trata de fazer mais discursos, mas de construir uma persona com a qual os jovens se identifiquem. Acho que a questão passa por quem fala com eles e pela maneira como essa comunicação acontece.
Ansiedade, esgotamento e solidão fazem parte da vida de muitos jovens. Como a política pode responder a esses problemas?
Primeiramente, precisamos de um Congresso Nacional – tanto na Câmara quanto no Senado – comprometido com a saúde. Por isso, além de legislação, precisamos construir uma rede de pessoas e iniciativas voltadas ao cuidado com a saúde mental. É necessário criar espaços de acolhimento, que não precisam ser exclusivamente físicos: podem ser também digitais. Precisamos estudar onde os adolescentes passam a maior parte do tempo. Estão no celular, na escola, na faculdade? Onde quer que estejam, precisamos garantir que encontrem espaços de apoio nesses ambientes.
Qual é sua posição sobre o aborto legal e o acesso à contracepção?
O aborto já tem uma legislação própria no Brasil desde 1940. Não sou uma pessoa autoritária. Sou católica e, como pessoa física, não faria um aborto. Mas não quero que minha religião paute a vida das outras pessoas, porque vivemos em um Estado laico. Minha fé não pode ser o ponto de partida para decidir sobre a vida de ninguém, nem ser um palanque político. Quero que as pessoas tenham acesso aos contraceptivos e à Farmácia Popular.
Quero que possam escolher entre os diferentes métodos disponíveis, sejam implantes, comprimidos, DIU ou qualquer outro método que escolham para suas vidas.
O que mudou na sua vida depois das ameaças e como tem enfrentado essa insegurança?
Eu já tinha consciência de que, se fosse eleita, as ameaças aumentariam muito. E foi exatamente o que aconteceu.
Desde 4 de outubro, recebo pelo menos três ameaças de morte por dia, além de ameaças de estupro, ataques racistas e outras formas de violência. Desde que fui eleita, ando com escolta 24 horas por dia.
Existem dois tipos de ameaça. Aquelas que mencionei, que chegam a cerca de três por dia, não são ameaças com as quais tenho contato direto: são identificadas e monitoradas a partir do meu Instagram. As ameaças às quais tenho acesso atualmente são as que chegam por e-mail.
Como avalia a mobilização dos jovens e estudantes nas ruas neste segundo turno?
Minha avaliação é que a juventude percebeu que este é o momento de a nossa geração fazer história. O que percebo hoje é que os jovens entenderam que a mudança passa por eles. Ser jovem e ser revolucionário é algo enfático.
Quem é a Ana Elisa fora da política, no dia a dia, com a família?
Faz muito tempo que não sei quem é a Ana Elisa fora da política. Acho que nem sei mais quem é essa moça. Sempre fui muito ligada à família. Ainda moro com minha mãe quando estou em casa, e minha família é muito unida, com tios, primos e uma relação bastante próxima entre todos nós. Hoje, vejo algumas pessoas a cada 15 ou 20 dias. Há parentes que não vejo desde que comecei a campanha eleitoral. Acho que isso diz muito sobre quem sou: uma pessoa que não foi criada em uma família tradicional brasileira, mas em uma família que se tornou tradicional à sua maneira para conseguir se amar.
Sua família participa do Reinado. Como essa tradição faz parte da sua história?
Eu nasci em Divinópolis, mas, assim como acontece em muitas cidades do interior de Minas Gerais, as pessoas acabam se mudando para buscar novas oportunidades. Foi o que aconteceu com minha família, que é toda de Oliveira. Quando minha madrinha chegou a Divinópolis, ela se casou com meu padrinho, que hoje é o capitão do Reinado da guarda que frequento. Nós fazemos parte do Moçambique de Santa Efigênia. Por isso, Santa Efigênia sempre foi uma espécie de padroeira da minha família. Estamos muito ligados a ela e percebemos essa presença em diferentes momentos da nossa história.
Comecei a participar do Reinado para dançar, quando tinha apenas 2 anos. Portanto, estou nessa tradição há 19 anos. Além disso, minha linhagem familiar já faz parte do Reinado há muito tempo. Também sinto que o Reinado vem sofrendo um processo de sucateamento por parte do poder público. É uma manifestação cultural que se tornou patrimônio do estado de Minas Gerais, mas que, de certa forma, ainda não recebe o investimento necessário para ser valorizada e preservada.
Quais mulheres são suas referências?
Com certeza a mulher que mais me inspira é a minha mãe, Maria Emília. É uma verdadeira guerreira, e não digo isso apenas pelos méritos que conquistou.
Quem você imagina que será a Ana Elisa aos 30 anos?
Olha, eu não imaginava que seria deputada federal aos 21 anos. Por isso, não sei o que estarei fazendo ou como será minha vida aos 30. Eu imaginava que, nessa idade, já estaria concursada na área do Direito. Não sei se esse ainda será meu caminho. Pode ser que eu deixe a vida parlamentar e decida prestar um concurso público, por exemplo. Não pretendo abandonar a faculdade, mas me refiro à possibilidade de seguir uma carreira no serviço público.
Você pensa em se candidatar à Presidência do Brasil?
Não é algo com que eu sonhe. Acho que as pessoas estão querendo muito mudar a composição do poder no Brasil. Tivemos apenas um presidente negro, que não chegou ao cargo pelo voto popular. E uma mulher negra na Presidência, então, nem se fala. Tivemos uma mulher branca e a derrotaram. Essa é a história do Brasil. Não é algo em que eu pense, mas também não imaginava que me tornaria deputada federal.
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